SOA – Sua Aplicação para Pequenas e Médias Empresas

Por Rodney Antonio Repullo, CEO da Magic Software Brasil – Grupo Repullo

Lições e recomendações para o uso do SOA em pequenas e médias empresas em busca de uma tecnologia mais flexível em benefícios dos processos de negócios

Resumo Executivo

Muito tem se falado e escrito sobre SOA (Arquitetura Orientada a Serviços) e BPM (Gerenciamento de Processos de Negócios) nos últimos tempos, mas como toda inovação, ela começa nas grandes empresas e ao chegar ao mercado de PME (Pequenas e Médias Empresas) passa por algumas adaptações para se tornar realidade neste mercado. A necessidade e a realidade das PME são diferentes, mas não impedem que o SOA e BPM traga significativos benefícios aos processos de negócios da cadeia de valor dessas empresas.

Introdução

A arquitetura orientada a serviços (SOA) é uma filosofia de projeto de sistemas que permite uma arquitetura mais flexível dos sistemas de informação, possibilitando assim uma melhor resposta aos desafios que o mercado impõe às empresa no que diz respeito à agilidade, à qualidade e à velocidade na execução dos processos de negócios. O grande desafio que o SOA vem auxiliar é o de possibilitar que os profissionais de TI consigam se aproximar cada vez mais da visão de negócios da empresa, sem ficarem bloqueados por questões tecnológicas que impedem que os sistemas respondam de forma adequada às demandas dos profissionais das áreas de negócios.

Nas grandes empresas, o SOA surge com o grande objetivo de criar sistemas flexíveis, que substituam o modelo dos ERPs atuais, que são resultados de milhões de gastos em customizações para se atingir sistemas aderentes aos processos da empresa. Dessa forma, se busca uma maneira de não se gastar mais alguns milhões a cada atualização de sistemas, devido a necessidade de se customizar novamente as aplicações, bem como ter mais agilidade na alteração de processos que envolvam os sistemas da empresa.

O SOA nas grandes empresas também é visto como a infra-estrutura tecnológica para a execução de projetos de BPM, que traz em seu objetivo maior, dar um salto qualitativo na execução dos processos, devido a uma visão mais aderente a processos do que a dados, base dos atuais ERPs. Nas PMEs, o menor poder de investimentos e o uso de pacotes mais fechados a customizações, aponta outros motivadores para o uso do SOA, com uma abordagem mais voltada à integração de processos, á criação de um barramento de integração para suporte a customizações, e possibilitar que projetos de BPM sejam feitos com escopos menores e foco prioritário voltado à cadeia produtiva da empresa.

SOA nas PMEs: viabilidade e principais motivadores

Sim, é possível desenvolver projetos SOA em pequenas e médias empresas e se beneficiar dessa infra-estrutura de sistemas, que vem a cada ano que passa, se mostrando como um grande passo na forma de pensar e desenvolver sistemas. Mas obviamente o SOA não é um fim em si. Como dissemos, o SOA é a infra-estrutura para que a área de sistemas atenda melhor as áreas de negócios da empresa.

SOA nada mais é que o resultado da incessante busca dos desenvolvedores de maximizar a reusabilidade de códigos, visando maior produtividade no desenvolvimento e manutenção de sistemas. Nos primórdios, eram as sub-rotinas, procedimentos, componentes, objetos até chegar aos dias de hoje no conceito de serviços, fazendo com que o conceito de reutilização ultrapasse a barreira de ser realidade dentro da própria linguagem e passe a ser realidade entre várias tecnologias. Os novos sistemas serão compostos de um conjunto de serviços que servirão de interface para integração com outros sistemas, automatização de processos, entre outras possibilidades. Como conseqüência natural dessa busca por reusabilidade, obteremos facilidade para integração de sistemas e sistema mais flexíveis para se ajustar aos processos de negócios das empresas.

O fato é que o SOA abre novas possibilidades às empresas e iremos explorar essas possibilidades à luz da realidade das PMEs.

Adotando vários sistemas aderentes às necessidades da empresa

Uma das grandes vantagens que o SOA traz às PMEs é a possibilidade de adoção de vários sistemas, sendo que cada um com maior aderência aos processos de negócios de sua empresa, quebrando o paradigma de que devemos optar sempre por um único ERP.

Temos ouvido e seguido por vários anos que devemos adotar um único ERP pelo motivo central, que é a integração das informações. Só que isso nos leva a prejudicar áreas de negócios, que são obrigadas a aceitar módulos de sistemas que não as atende perfeitamente, mas em prol do paradigma do ERP único, são obrigadas a usá-lo.

Conseqüência disso é uma sobrecarga de atividades manuais e o uso intensivo de planilhas para complementar os controles, gerando duplicidade de informação, perda de qualidade de informação, entre outras conseqüências. Ou para se ter maior aderência aos processos da empresa, se parte para a contratação de customizações de algumas funcionalidades faltantes, o que implica pagar altos valores e que, muitas vezes, ao longo dos anos, são superiores ao próprio valor pago pelo ERP. Como estamos falando de PME, várias vezes a customização tem valores que são inviáveis para sua realidade, fazendo com que o processo de negócio não seja 100% atendido pelo sistema, tendo como conseqüência uma perda de eficiência no suporte que TI dá aos negócios.

Os ERPs por serem genéricos, fazem com que a customização seja incorporada ao Sistema, o que as tornam mais complexas e trabalhosas de se implementar. Por serem inevitáveis, os fornecedores de ERPs tentam evitar ao máximo essas customizações, chegando inclusive a aumentar o seu custo para não incentivar essa opção.

Atualmente, no Brasil, há uma vasta variedade de aplicações, sendo que cada uma com sua especialidade e a possibilidade de integração via SOA nos deixa livre para adoção do que é melhor para cada área da empresa. Obviamente, devemos evitar exageros nessa variedade de adoção, pois integrar também dá trabalho, mas com certeza devemos privilegiar sistemas especialistas que tragam maiores benefícios à nossa empresa.

Para ilustrar, vamos citar alguns dos muitos cenários possíveis e mais comuns encontrados em PMEs:

Cenário 1 – Indústria

  • Sistema 1: eCommerce (WEB)
  • Sistema 2: ERP Módulos Administrativos (Financeiro, Faturamento, Compras, Estoque, Contabilidade e Fiscal).
  • Sistema 3: PCP: Módulos de Produção e Chão de Fábrica.

Cenário 2 – Comércio

  • Sistema 1: ERP Módulos Administrativos (Financeiro, Faturamento, Compras, Estoque, Contabilidade e Fiscal).
  • Sistema 2: Frente de Loja.
  • Sistema 3: Fidelidade de Clientes.
  • Sistema 4: eCommerce (Web).

Cenário 3 – Serviço

  • Sistema 1: ERP Módulos Administrativos (Financeiro, Faturamento, Contabilidade e Fiscal).
  • Sistema 2: Sistema de Controle de Chamados de Clientes / Ordem de Serviços.
  • Sistema 3: CRM.

Dentro desse tema de utilização de vários aplicativos, podemos ainda chamar a atenção para o tópico de “Preservação do Investimento”, que como conseqüência da possibilidade de se utilizar mais de um sistema, podemos manter alguns sistemas que satisfazem a necessidade da empresa. Mas, por conta da falta de integração com outras áreas, acaba por ser substituído, levando por água abaixo investimentos realizados em software, hardware, treinamento, etc.

Realizando integrações de processos de negócios em tempo real e não apenas de sistemas

Com a adoção de vários sistemas nas empresas, o SOA nos permite realizar integrações dos Processos em Tempo Real, no lugar das tradicionais integrações através de trocas de informações em lote (batchs). O processo Batch normalmente é realizado através de troca de arquivos-texto ou bases de dados de transferências. O caminho para dar agilidade e ganhos aos processos de negócios das empresas é a realização das integrações em tempo real, o que nos leva a uma quebra de paradigma no tópico integração.

As integrações devem ser pensadas á luz dos processos e não devem ter um enfoque apenas técnico, que olhem para as bases de dados (tabelas dos sistemas) ao invés de olhar aos processos. O correto é mapear os processos da empresa, que envolvem os sistemas em questão, entender como podemos otimizar estes processos e analisar onde há necessidade de integração, que informações devem passar de um sistema a outro e em que momento.

A quebra de paradigma ao tradicional método de integração em Batch, tem sido umas das principais dificuldades em se implementar projetos de SOA que tragam reais benefícios aos processos de negócios das empresas.

Muitos projetos de integrações de sistemas são feitos através de troca de arquivos, em horários pré-definidos e que trazem um atraso inevitável a execução dos processos na empresa. O caminho que o SOA nos oferece, para tornar a empresa mais ágil, é sempre pensar em integrações em tempo real, que fazem com que a informação de um sistema passe ao outro no momento da sua geração, criando assim o conceito de se ter uma única aplicação composta na empresa.

Normalmente nas PMEs os profissionais das áreas de negócios e que dominam os processos ficam alheios aos projetos de integração, que ficam por conta apenas dos profissionais de TI. Muitos por não terem desenvolvido ainda um visão mais próxima aos processos da empresa e de suas necessidades por agilidade e flexibilidade, dão soluções convencionais como a troca de arquivos (EDI – Eletronic Data Interchange) para realizar a integração. Por isso, recomendamos fortemente que os donos dos processos sempre participem das definições iniciais dos projetos de integração, contribuindo assim com sua visão de negócio. Mas cabe aos profissionais de TI saber que o SOA traz a possibilidade de integração em tempo real e que por desconhecimento disso não coloque bloqueios técnicos desnecessários aos projetos.

No cenário-exemplo de indústria, citado anteriormente, é fundamental que a área de produção usuária do PCP, saiba em tempo real de todos os pedidos que são recebidos pelo ERP, que por sua vez os recebe através do sistema de eCommerce. Ou seja, num cenário em que o tempo real seja deixado de lado, podemos ter horas ou até dias de atrasos inseridos no processo desnecessariamente, deixando de trazer grandes benefícios à empresa.

Automatização de processos em prol da qualidade e agilidade na execução dos processos

Outro grande benefício que o SOA traz às PMEs é a possibilidade de automatizar processos, obtendo ganhos significativos de qualidade e produtividade na execução dos processos da empresa.

Devemos analisar os processos críticos da empresa e buscar “sonhar” em como gostaríamos que eles fossem executados de forma automática e avaliar essa possibilidade a partir dos recursos de SOA disponíveis. O SOA nos auxilia na medida em que os serviços expostos pelos aplicativos tornam possíveis as execuções de integração de processos até mesmo entre serviços da mesma aplicação, possibilitando assim a criação de automatizações de processos.

Antes do SOA, essas automatizações eram possíveis apenas através de customizações internas aos sistemas existentes. Na prática, a automatização através do SOA, não deixa de ser uma customização, mas passa a ter uma característica não-invasiva ao sistema. Dizemos que a customização fica desacoplada do sistema em questão.

Podemos assim escolher a linguagem na qual iremos desenvolver a customização e não ficamos restritos à linguagem do aplicativo. Baixando assim custos e reutilizando conhecimentos existentes na própria empresa.

Esse desacoplamento traz entre outros benefícios a possibilidade de receber novas versões dos aplicativos, sem ter a necessidade de redesenvolver as customizações sobre a nova versão.

Adoção de um ESB

O SOA traz junto com seus benefícios uma complexidade maior no gerenciamento sobre o funcionamento de todos esses serviços que estão sendo utilizados na empresa. Com isso, surgiram produtos que foram batizados como ESBs (Enterprise Service Bus), que atuam como um barramento de integração de serviços por onde passam todas as integrações.

Muitos deles auxiliam de forma significativa na criação de serviços a partir de sistemas legados que não possuem esse conceito nativamente. Hoje é possível, por exemplo, tornar uma rotina escrita em COBOL em um webservice que pode ser chamado por qualquer tecnologia atual. Ou transformar uma rotina Java em um componente .NET (ou vice-versa) quebrando assim umas das barreiras atuais de projetos de integração.

O uso do ESB não se restringe ao gerenciamento dos serviços em uso, mas também funcionam com um acelerador de produtividade na execução das automatizações e integrações dos processos. Alguns trazem componentes prontos e adaptadores para vários aplicativos, o que facilitam e muito a execução de projetos.

Caso a adoção do SOA não seja apenas para uma solução pontual na empresa e sim devido a uma decisão estratégica para a arquitetura dos sistemas, a inclusão de um ESB no projeto é um pré-requisito. Abrir mão dele implica em perder gerenciamento, produtividade e segurança na execução dos processos.

Onde o BPM encontra o SOA

Alguns ESBs trazem tantas funcionalidades que chegam a serem classificados também como BPMS (Business Process Management Suite) com foco na integração ou se usado em conjunto com alguma solução de Workflow tornam-se BPMS completos.

Na prática, todos os temas explorados neste artigo, como integração de processos, automatização de processos, maior visão de negócios, tempo real, entre outros, são substemas do BPM. Com isso, se pode definir, em apenas um termo, qual é o principal objetivo do SOA, diria que é o BPM, ou seja, o gerenciamento dos processos de negócios.

A era do ERP nas PMEs afastou a visão de processo de muitas das empresas, que apostaram que o ERP iria resolver todos os seus problemas. O fato é que essas empresas se esqueceram de definir melhor seus processos e olhar para o ERP como parte de sua solução e acabaram por buscar a todo custo que o ERP resolvesse tudo, desde do que é básico até o que há de mais específico nos processos da empresa. Nesse ponto é que o SOA vem contribuir de forma significativa para a construção de uma camada de negócios, que preencha o espaço entre a necessidade da empresa e o que o ERP pode oferecer. É exatamente onde entra o conceito de BPM.

Todos os benefícios que exploramos neste artigo poderiam ser resumidos pelo conceito de BPM, que é na prática a finalidade maior da existência do SOA. Podemos definir o SOA com a infra-estrutura necessária para a implementação do BPM.

Considerações finais

Como consideração final, reforçamos a necessidade que temos de que os profissionais de TI cada vez mais se aproximem da área de negócios da empresa, passem a dominar os processos e busquem alternativas para dar mais agilidade e flexibilidade para a empresa. Ainda vemos muitos profissionais distantes dessa visão e que estão envolvidos com questões técnicas, também importantes, mas que não podem ficar limitados a essa visão. O SOA deve ser entendido como meio (ferramenta) e não com fim em si mesmo, para a busca de melhorias nos processos da empresa.

Publicado em BPM, BPMS. 8 Comments »

8 Respostas to “SOA – Sua Aplicação para Pequenas e Médias Empresas”

  1. leandro Says:

    bom artigo , vai servir pra um trabalho de pos-graduação que estou fazendo..valeu.

  2. Decio Kosminsky Says:

    Por gentileza, você poderia informar as referências de seu artigo. Estou desenvolvendo um trabalho sobre SOA e achei seu artigo muito interessante.

  3. Decio Kosminsky Says:

    Preciso de referências deste artigo, para um trabalho que estou fazendo na UFMG. Obrigado e um abraço, Decio

  4. cleverson Says:

    Quais as referência usadas neste artigo. Preciso de mais informações sobre SOA. Faço Sistemas de Inf. e pretendo apresentar um trabalho sobre o assunto. Valeu

  5. Rebeca Says:

    Bom artigo, vou usar no meu trabalho para obtenção do grau de licenciatura.
    peço as referências usadas neste artigo

  6. Octacilio Veiga Nazaré Says:

    Achei o artigo muito simples com palavras bem apropriadas ao tema e também vou adotar ao meu trabalho final da pós. Preciso da referência usada neste artigo. agradeço octacilio.

  7. Rodrigo S V Sampaio Says:

    Caro Sr. Rodney estou em meio ao meu TCC com o assunto que foi brilhantemente abordado pelo senhor. Peço que me indique bibliografia a respeito pois estou tendo grande dificuldade em encontrar.


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